3 de dezembro de 2011

O dia internacional do Yes

Tenho que postar isso porque sumiu a antiga referência:

 
Yoko conheceu Lennon em 9 de outubro de 1966, quando o cantor visitou uma galeria em Londres onde ela estava expondo. Lennon se encantou por uma obra de Yoko em que subia as escadas, e no teto havia uma lupa com a palavra "yes!". Conforme ele avançava a escada, a palavra ficava mais nítida. John se apaixonou na hora. "Ela podia ter escrito qualquer coisa; guerra, sexo, morte. Mas ela escreveu 'sim', tudo que eu precisava naquele momento.




15 de novembro de 2011

Julio Cortázar (Paris)




 I simply had to accept the idea that coming to Paris, and cutting the bridges with Argentina at that time meant being very poor and having problems making a living. But that didn’t worry me. I knew in one way or another I was going to manage. I came to Paris primarily because Paris, French culture on the whole, held a strong attraction for me. I had read French literature with a passion in Argentina, so I wanted to be here and get to know the streets and the places one finds in the books, in the novels. To go through the streets of Balzac or of Baudelaire . . . it was a very romantic voyage. I was, I am, very romantic.


Paris Review

10 de outubro de 2011

Caminhando


Por uma razão qualquer, a compreensão de que nada havia a esperar teve salutar efeito sobre mim. Durante semanas e meses, durante, na realidade, durante toda a minha vida, eu vinha esperando que algo acontecesse, algum fato extrínseco que alterasse a minha vida; e, agora, de repente, inspirado pela absoluta desesperança de tudo, sentia-me aliviado, sentia como se tivessem arrancado um grande peso dos ombros. (...) Caminhando em direção a Montparnasse, decidi deixar-me arrastar pela maré, não opor a menor resistência ao destino, fosse qual fosse a forma sob a qual se apresentasse. Nada do que me acontecera até então fora suficiente para destruir-me; nada fora destruído, exceto minhas ilusões. Eu mesmo estava intacto. O mundo estava intacto. (...) Pareceu-me que a grande calamidade já se manifestara, que eu não poderia ficar mais verdadeiramente sozinho do que naquele próprio momento. Decidi que não me apegaria a nada, que não esperaria nada, que a partir de então viveria como um animal, como uma fera carnívora, um nômade, um rapinante. (...) Pelo o que ele chama de melhor parte da sua natureza, o homem foi traído, só isso. Nos extremos limites do seu ser espiritual o homem se encontra de novo nu como um selvagem. Quando encontra Deus, por assim dizer, ele está bem arrumado: é um esqueleto. A gente precisa afundar-se de novo na vida a fim de ganhar carne. O verbo precisa fazer-se de carne; a alma tem sede. Qualquer migalha que meus olhos pousem, agarrarei e devorarei. Se viver é a coisa suprema, então viverei, mesmo que precise tornar-me um canibal. (...) Encontrei Deus, mas ele é insuficiente. Só espiritualmente é que estou morto. Fisicamente estou vivo. Moralmente estou livre. O mundo que abandonei é uma jaula. A aurora está nascendo sobre um mundo novo, uma selva na qual os espíritos descarnados rondam com garras afiadas. Se sou uma hiena, sou uma hiena descarnada e faminta: avanço para engodar-me.

Trópico de Câncer
Henry Miller

26 de setembro de 2011

Furtenberg

Passo pela Praça de Furstenberg. Parece diferente agora, ao meio dia. Outra noite, quando passei por ela, estava meio deserta, desolada, espectral. No meio da praça, quatro árvores pretas que ainda não começaram a florir. Árvores intelectuais, alimentadas pelas pedras do calçamento. Como o verso de T.S. Eliot. Aqui, por Deus, se Marie Laurencin alguma vez trouxesse suas lésbias para o claro, seria o lugar para elas comungarem. Très lesbienne ici. Estéril, híbrido, seco como o coração de Bóris.

Henry Miller- Trópico de Câncer

***Laurencin nasceu em Paris, no ano de 1883, onde foi criada por sua mãe. Mas, durante o período da I Grande Guerra, deixou a França e foi para a Espanha com seu marido alemão, o Baron Otto von Waëtjen. O casal viveu por alguns anos, no entanto, em 1920, após se divorciar, Laurencin voltou à Paris. Nos primeiros anos do século XX, Laurencin ocupou um papel muito importante dentro da vanguarda francesa. Neste mesmo período, envolveu-se em um relacionamento amoroso com o poeta Guillaume Apollinaire. A artista também é lembrada como a única mulher cubista. Apesar de sua obra ser claramente influenciada por Pablo Picasso e Georges Braque, ela desenvolveu uma visão própria da abstração a partir da representação da mulher e de comunidades femininas. A evolução do trabalho de Laurencin apresenta uma tentativa de inovar através do uso de uma estética feminina específica com o uso de pastéis e formas curvilíneas. Tanto em sua pintura quanto em seus desenhos e impressões, Laurencin continuou a explorar seus temas femininos, que Miller identifica como lesbicas no texto acima. 

13 de agosto de 2011

24 de fevereiro de 1952





Meu caro Eduardo:


É noite de domingo, e estou descansando um pouco, sozinho em meu quarto, depois de uma semana cheia de coisas, idas e vindas, experiências curiosas, “quebradas de cara” e grandes maravilhas. Há um silêncio imenso na Cité porque é meia-noite, os últimos grupos de estudantes se dispersaram, e os rádios – um ou dois – do meu andar emudeceram. Tenho aqui comigo um gatinho, que preciso alimentar e abrigar esta noite, pois é o filho coletivo dos moradores do 3º andar. (Há uma semana eu o salvei de morrer gelado na neve, e em reconhecimento o dito-cujo lambeu de tal maneira um pulôver meu que estava ao pé da cama que o estropiou para sempre.) Acho que há exatos dois anos eu estava em Veneza, prestes a vir para a misteriosa Paris. Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: “Vou entrar outro dia.” Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna... É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais empiétent[1] sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo... O cruel de Buenos Aires é que ela é muito mais matéria intelectual do que estética, e apressa esse processo horroroso de cristalização de um homem. Por isso os argentinos são gente de tanto “caráter” (!), de tanta “personalidade” – repertórios de ideias definitivamente fixas, congeladas, sem movimento possível. Todo mundo lá tem sua opinião sobre as coisas, mas você há de concordar comigo em que basta opinar sobre uma coisa para, ato contínuo, deixar de vê-la. A ideia de Wilde em seu Retrato do Sr. W. H. é realmente profunda: se no ato de provar que uma coisa é A ou B irrompe de repente uma angústia terrível e uma sensação de descrença total no que se afirmou, isso se deve ao fato de que todo homem inteligente e sensível sabe que uma prova é sempre outra coisa, que absolutamente não afeta a realidade essencial daquilo de que se fala. Eu gostaria que Paris se entregasse a mim sempre como a cidade do primeiro dia. Estou aqui há quatro meses: mas cheguei ontem de noite, chegarei outra vez esta noite. Amanhã será meu primeiro dia em Paris.

Comecei a ir ao Louvre, depois de um repentino ataque de raiva por meu condenável mandarinismo. Fui com uma alegria de criança, entrei por aquela porta do Carrousel e me dei ao luxo de passar um bom tempo no hall de entrada, olhando livros e cópias... depois atravessei a Galerie Daru, e lá de baixo vi a Vitória de Samotrácia com toda a sua túnica ao vento. Levava grandes mapas exploratórios (em 1950 estive só dez vezes, de maneira que só conheço algumas seções), mas quando desci pela escadinha da esquerda e me vi diante da Hera de Samos e dos Apolos arcaicos... pronto. Já estive lá três vezes, e não saio das salas gregas. Ontem de tarde o sol iluminava os mármores, vi uma cabeça de atleta com o nariz e os lábios transparentes, como se fossem de mel. E o Apolo Sauróctono brilhava como se a luz brotasse de dentro dele. (Ah, mas antes de ir embora fiz uma travessura: desci correndo até as salas egípcias e fui olhar a deusa dentro do nicho, aquela que iluminam com “luz negra” e que gela meu sangue.)

Já fiz a primeira gravação para as Actualités. Sou um péssimo speaker, pois meus erres fazem o coitado do gravador pular, mas parece que dá para entender muito bem o que digo, ao contrário do que ocorria com o sujeito que estou substituindo. Não acredito que esse trabalho vá durar mais de dois meses, mas são alguns francos facilmente ganhos. E vou conhecendo pessoas curiosas: um grego, um árabe, um chefe de som que fala o argot mais invejável da terra.

Estou muito contente de saber que saiu “El juicio”. Pepe me mandou três números de Sur, mas falta o último; espero vê-lo muito em breve. E seus poemas, vai fazer o livro este ano? Já encontrou o título? Cada dia gosto mais de Georg Trakl. Tenho uma amiga que lê para mim em alemão e depois me traduz linha por linha. Temos muitos poemas de Trakl, ele nos parece um poeta muito intenso. E agora este finalzinho de carta eu dedico a María. Quero dizer novamente que você fez muito bem em me escrever daquele modo, e que não há motivo para se desculpar. Se minha memória continua fiel, no próximo dia 27 você vai somar mais um ano a sua vida. Beberei por você uma grandetaça de Beaujolais num bistrô da rue du Cardinal Lemoine, ao lado da place de la Contrescarpe. Gosta disso como presente de aniversário?


Um abraço bem grande, e que esta o encontre bem,

Julio

12 de agosto de 2011

Aqui é o berço dos nascimentos artificiais


“Não é o acaso que traz gente como nós a Paris. Paris é simplesmente um palco artificial, um palco giratório, que permite ao espectador entrever todas as fases do conflito. Por si só, Paris não inicia drama algum. Os dramas começam em outro lugar qualquer. Paris é simplesmente um instrumento obstétrico que arranca o embrião vivo do útero e coloca-o na incubadora. Paris é o berço dos nascimentos artificiais(...). Tudo é levado à apoteose. O berço entrega os bebês e outros novos ocupam seus lugares. Pode-se ler aqui nas paredes onde viveu Zola, Balzac, Dante e Strindberg, e toda gente que foi alguma coisa. Todos viveram aqui em uma ocasião ou outra. Ninguém morre aqui”.