3 de dezembro de 2011

O dia internacional do Yes

Tenho que postar isso porque sumiu a antiga referência:

 
Yoko conheceu Lennon em 9 de outubro de 1966, quando o cantor visitou uma galeria em Londres onde ela estava expondo. Lennon se encantou por uma obra de Yoko em que subia as escadas, e no teto havia uma lupa com a palavra "yes!". Conforme ele avançava a escada, a palavra ficava mais nítida. John se apaixonou na hora. "Ela podia ter escrito qualquer coisa; guerra, sexo, morte. Mas ela escreveu 'sim', tudo que eu precisava naquele momento.




26 de setembro de 2011

Furtenberg

Passo pela Praça de Furstenberg. Parece diferente agora, ao meio dia. Outra noite, quando passei por ela, estava meio deserta, desolada, espectral. No meio da praça, quatro árvores pretas que ainda não começaram a florir. Árvores intelectuais, alimentadas pelas pedras do calçamento. Como o verso de T.S. Eliot. Aqui, por Deus, se Marie Laurencin alguma vez trouxesse suas lésbias para o claro, seria o lugar para elas comungarem. Très lesbienne ici. Estéril, híbrido, seco como o coração de Bóris.

Henry Miller- Trópico de Câncer

***Laurencin nasceu em Paris, no ano de 1883, onde foi criada por sua mãe. Mas, durante o período da I Grande Guerra, deixou a França e foi para a Espanha com seu marido alemão, o Baron Otto von Waëtjen. O casal viveu por alguns anos, no entanto, em 1920, após se divorciar, Laurencin voltou à Paris. Nos primeiros anos do século XX, Laurencin ocupou um papel muito importante dentro da vanguarda francesa. Neste mesmo período, envolveu-se em um relacionamento amoroso com o poeta Guillaume Apollinaire. A artista também é lembrada como a única mulher cubista. Apesar de sua obra ser claramente influenciada por Pablo Picasso e Georges Braque, ela desenvolveu uma visão própria da abstração a partir da representação da mulher e de comunidades femininas. A evolução do trabalho de Laurencin apresenta uma tentativa de inovar através do uso de uma estética feminina específica com o uso de pastéis e formas curvilíneas. Tanto em sua pintura quanto em seus desenhos e impressões, Laurencin continuou a explorar seus temas femininos, que Miller identifica como lesbicas no texto acima. 

13 de agosto de 2011

24 de fevereiro de 1952





Meu caro Eduardo:


É noite de domingo, e estou descansando um pouco, sozinho em meu quarto, depois de uma semana cheia de coisas, idas e vindas, experiências curiosas, “quebradas de cara” e grandes maravilhas. Há um silêncio imenso na Cité porque é meia-noite, os últimos grupos de estudantes se dispersaram, e os rádios – um ou dois – do meu andar emudeceram. Tenho aqui comigo um gatinho, que preciso alimentar e abrigar esta noite, pois é o filho coletivo dos moradores do 3º andar. (Há uma semana eu o salvei de morrer gelado na neve, e em reconhecimento o dito-cujo lambeu de tal maneira um pulôver meu que estava ao pé da cama que o estropiou para sempre.) Acho que há exatos dois anos eu estava em Veneza, prestes a vir para a misteriosa Paris. Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: “Vou entrar outro dia.” Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna... É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais empiétent[1] sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo... O cruel de Buenos Aires é que ela é muito mais matéria intelectual do que estética, e apressa esse processo horroroso de cristalização de um homem. Por isso os argentinos são gente de tanto “caráter” (!), de tanta “personalidade” – repertórios de ideias definitivamente fixas, congeladas, sem movimento possível. Todo mundo lá tem sua opinião sobre as coisas, mas você há de concordar comigo em que basta opinar sobre uma coisa para, ato contínuo, deixar de vê-la. A ideia de Wilde em seu Retrato do Sr. W. H. é realmente profunda: se no ato de provar que uma coisa é A ou B irrompe de repente uma angústia terrível e uma sensação de descrença total no que se afirmou, isso se deve ao fato de que todo homem inteligente e sensível sabe que uma prova é sempre outra coisa, que absolutamente não afeta a realidade essencial daquilo de que se fala. Eu gostaria que Paris se entregasse a mim sempre como a cidade do primeiro dia. Estou aqui há quatro meses: mas cheguei ontem de noite, chegarei outra vez esta noite. Amanhã será meu primeiro dia em Paris.

Comecei a ir ao Louvre, depois de um repentino ataque de raiva por meu condenável mandarinismo. Fui com uma alegria de criança, entrei por aquela porta do Carrousel e me dei ao luxo de passar um bom tempo no hall de entrada, olhando livros e cópias... depois atravessei a Galerie Daru, e lá de baixo vi a Vitória de Samotrácia com toda a sua túnica ao vento. Levava grandes mapas exploratórios (em 1950 estive só dez vezes, de maneira que só conheço algumas seções), mas quando desci pela escadinha da esquerda e me vi diante da Hera de Samos e dos Apolos arcaicos... pronto. Já estive lá três vezes, e não saio das salas gregas. Ontem de tarde o sol iluminava os mármores, vi uma cabeça de atleta com o nariz e os lábios transparentes, como se fossem de mel. E o Apolo Sauróctono brilhava como se a luz brotasse de dentro dele. (Ah, mas antes de ir embora fiz uma travessura: desci correndo até as salas egípcias e fui olhar a deusa dentro do nicho, aquela que iluminam com “luz negra” e que gela meu sangue.)

Já fiz a primeira gravação para as Actualités. Sou um péssimo speaker, pois meus erres fazem o coitado do gravador pular, mas parece que dá para entender muito bem o que digo, ao contrário do que ocorria com o sujeito que estou substituindo. Não acredito que esse trabalho vá durar mais de dois meses, mas são alguns francos facilmente ganhos. E vou conhecendo pessoas curiosas: um grego, um árabe, um chefe de som que fala o argot mais invejável da terra.

Estou muito contente de saber que saiu “El juicio”. Pepe me mandou três números de Sur, mas falta o último; espero vê-lo muito em breve. E seus poemas, vai fazer o livro este ano? Já encontrou o título? Cada dia gosto mais de Georg Trakl. Tenho uma amiga que lê para mim em alemão e depois me traduz linha por linha. Temos muitos poemas de Trakl, ele nos parece um poeta muito intenso. E agora este finalzinho de carta eu dedico a María. Quero dizer novamente que você fez muito bem em me escrever daquele modo, e que não há motivo para se desculpar. Se minha memória continua fiel, no próximo dia 27 você vai somar mais um ano a sua vida. Beberei por você uma grandetaça de Beaujolais num bistrô da rue du Cardinal Lemoine, ao lado da place de la Contrescarpe. Gosta disso como presente de aniversário?


Um abraço bem grande, e que esta o encontre bem,

Julio

12 de agosto de 2011

Aqui é o berço dos nascimentos artificiais


“Não é o acaso que traz gente como nós a Paris. Paris é simplesmente um palco artificial, um palco giratório, que permite ao espectador entrever todas as fases do conflito. Por si só, Paris não inicia drama algum. Os dramas começam em outro lugar qualquer. Paris é simplesmente um instrumento obstétrico que arranca o embrião vivo do útero e coloca-o na incubadora. Paris é o berço dos nascimentos artificiais(...). Tudo é levado à apoteose. O berço entrega os bebês e outros novos ocupam seus lugares. Pode-se ler aqui nas paredes onde viveu Zola, Balzac, Dante e Strindberg, e toda gente que foi alguma coisa. Todos viveram aqui em uma ocasião ou outra. Ninguém morre aqui”. 


19 de julho de 2011

gastronomia imaginária

O arquivo de Mário de Andrade, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, guarda, entre os cardápios que o escritor preservou, este, de um jantar oferecido por René Thiollier a Olívia Guedes Penteado, em 1925, 7 de maio. Perdão! Trata-se do menu do diner, que distingue a homenageada como "Madame" e designa em francês todas as iguarias de sal – sopa, peixe, massa leve recheada (vol au vent) com recheio de fígado de gansos desafortunados, peru à brasileira, presunto de York, salada –; as sobremesas – bolo batizado com o nome do amigo distante, o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, salada de frutas e sorvete. As bebidas são champanhe e licores, estes, assim como o café, para fechar o ágape que confraterniza os modernistas de São Paulo e seus mecenas, no ano da publicação de Pau Brasil, de Oswald de Andrade. O nome "Mario de Andrade", a tinta preta, no alto, indica a organização dos convivas à mesa; o apuro gráfico do cardápio; a mansão da avenida Paulista que tem por nome "Villa Fortunata" e se mostra em fotografia trabalhada pelo estúdio Stern, de Paris, testemunham o vínculo de certos representantes da elite social e econômica com a renovação das artes e das letras. Os três mecenas do modernismo paulistano estão presentes: o anfitrião, dona Olívia Guedes Penteado e Paulo Prado. Thiollier, contista de O senhor dom Torres (1921), e o editor da Revista do Brasil haviam se empenhado para a realização da Semana de Arte Moderna, em 1922, e Dona Olívia, em seu salão nos Campos Elíseos, destacava-se como a Senhora das Artes, segundo a historiadora Denise Mattar. Os três assinam o verso do cartão, assim como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade (como "Pau Brasil"), Guilherme de Almeida e outros presentes. Mário de Andrade constrói seu souvenir, desperto para o relato da História nos documentos do cotidiano.
Em abril do ano anterior, na viagem a Minas Gerais, que empreendera com D. Olívia, Tarsila, Oswald e o filho dele, Nonê, Paulo Prado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e Blaise Cendrars, viagem na qual nascera a estética Pau Brasil, Mário de Andrade copiara, para seu arquivo, os dados pessoais deixados pelos excursionistas no Hotel Macedo, em São João Del Rei. Eis o registro impregnado do "claro riso dos modernos", unindo mecenas, pintora e poetas: "D. Olívia Guedes Penteado, solteira, photographer, anglaise, London. D. Tarsila do Amaral, solteira, dentista, americana, Chicago. Dr. René Thiollier, casado, pianista, russo, Rio. Blaise Cendrars, solteiro, violinista, allemand, Berlin. Mário de Andrade, solteiro, fazendeiro, negro, Bahia. Oswald de Andrade Filho, solteiro, escrittore, suíço".

29 de junho de 2011

Aviso: Só para São João Del Rei e Tiradentes


Em março de 2006, alunos do Curso de Formação de Escritor da PUC-Rio buscavam meios e formas para  publicar seus textos no cenário carioca. Depois de perceberem a dificuldade de se lançarem no mercado editorial, Lucas Viriato sugeriu a criação de um veículo que pudesse ser um espaço de experimentação e divulgação de novos jovens autores. Nasceu então o Plástico Bolha, jornal literário que hoje em dia, depois de seis anos de existência, é uma vitrine da nova literatura no Brasil. O Jornal tem uma tiragem de 13.000 exemplares, distribuídos em mais de oito estados, e já recebeu mais de 4.000 textos ao longo desses anos que se dividem não apenas no jornal impresso, mas também no blog do jornal. Em 2010, foi publicado o primeiro livro  do jornal, Antologia de Prosa Plástico Bolha, reunindo os destaques literários em prosa de mais de trinta autores.
Nesses anos todos, o Plástico Bolha se transformou e inovou, além de expandir literatura pelo jornal e pelo blog, expande também seus rumos conquistando leitores e espectadores com performances de poetas e escritores em praças públicas, desfiles com fantasias feitas de plástico bolha e tantos outros eventos divulgando o lado vivo e performático da literatura, que pode transbordar dos livros e ocupar as ruas.
No próximo mês de agosto, o Plástico Bolha participa do XIV Festival de Cultura e Gastronomia de Tiradentes, oferecendo ao grande público um cardápio divertido e sensacional da mais deliciosa literatura contemporânea!
Para um momento tão especial, é preciso preparar também uma edição surpreendente! Convocamos ensaístas, contistas, poetas e contadores de histórias da UFSJ e das cidades de São João Del Rei, Tiradentes e localidades próximas para participarem enviando suas criações para o e-mail JORNALPLASTICOBOLHA@GMAIL.COM  até o dia 27 DE JULHO DE 2011.
Selecionaremos, preferencialmente, textos que tenham como tema o lema do festival: a gastronomia.
Qualquer dúvida, entrar em contato pelo mesmo e-mail.
www.jornalplasticobolha.com.br

9 de maio de 2011

La escuela gardeleana


“(...)Tinha então dezoito anos e vivia sozinha em Paris, sem rumo definido. Paris de 1928. Paris das orgias e dos banquetes regados a champagne. (...) Paris de 1928, onde cada dia nascia um novo cabaré, (...).
Dezoito anos, loura, olhos azuis. Sozinha em Paris.
Para suavizar minha desgraça, entreguei-me totalmente aos prazeres.
Certa feita, um daqueles elementos que sempre vegetam nesse ambiente cosmopolita descobriu a minha dor secreta e recomendou-me remédio para o esquecimento... Cocaína, morfina, drogas. Então, comecei procurando lugares exóticos, (...).
Naquela época, colhia êxitos e aplausos um recém chegado cantor de cabaré. Debutara no Florida e cantava canções estranhas num idioma estranho.
Cantava num traje exótico, desconhecido em Paris até então, tangos, rancheiras e sambas argentinos. (...) Era Carlos Gardel. Seus tangos chorosos, que cantavam toda a alma, conquistaram o público sem se saber por quê.
(...)
Nesse tempo, havia em Paris um cabaré chamado Palermo, na rue de Clichy, frequentado quase exclusivamente por sul-americanos... Foi ali que o conheci. (...), mas eu só me interessava pela cocaína... (...)
Aquela amizade consolidou-se em outras noites, outros passeios, outras confidências, debaixo da pálida lua parisiense, através dos campos floridos. (...) Esse homem ia me entrando na alma. (...), suas frases iam cavando a pedra da minha indiferença. Enlouqueci. (...) Era o meu primeiro amor”.

Capítulo 111